— Papai, você não vem jogar bola comigo?
Passos ecoam na escuridão. Um longo túnel a frente do menino. Está escuro como o inferno, e um cheiro podre navega pelo ambiente. A criança não pode vê-lo, mas sabe que em algum lugar em meio às sombras e ao breu completo, está seu pai.
— Papai?
Caminha timidamente. O desejo de ver seu pai é mais forte que o medo de suas pernas. O coração pula em freqüência absurda no corpinho vulnerável. Tudo é silêncio, exceto pelo seu ofegar. E o cheiro pútrido começa a se tornar mais forte. Um horrível cheiro de morte, o mesmo que se sente quando o quarto de um suicida é aberto após dias com o cadáver na cama. Mas ele é apenas uma criança inocente, jamais viu um cadáver, talvez nem saiba o que é morrer.
Acelera os passinhos miúdos, persegue as trevas como homem algum seria capaz de fazer. A ingenuidade é um grande escudo, o desconhecimento um combustível da coragem. A luz se extinguiu por completo, nem o próprio ponto de onde partiu está visível ao mais atento dos olhos. Mas ainda assim, o menino prossegue.
O chão começa a ficar pegajoso, e as paredes, mesmo no breu, parecem se fechar. O ar é pesado, o ar é denso; o ar é áspero e rasga as narinas ao entrar. Cada respiração é como um sufocamento. Está chegando, ele sente que está chegando cada vez mais perto de seu sonho. Seu pai jogará bola com ele mais uma vez antes de ir, ele tem certeza!
Um som.
Um som se arrasta a alguns centímetros à frente. Não é seu pai. Não é seu pai, e que medo isso lhe gera. Um som tão violento como o ar, tão podre como o funesto cheiro. Ele quer apenas desviar daquilo e continuar correndo, mas suas pernas ganham a força para segurá-lo. O pavor domina cada centímetro de seu corpo.
Um gemido.
Daquilo à sua frente sai um gemido rouco e seco. O garoto pode sentir a presença ao alcance de suas mãos, sente-se encurralado. Não há como fugir, não há nada a fazer. O mistério se aproxima, e o pequeno pode sentir mãos putrefatas o buscando na escuridão. Não se move, não consegue se mover. Não consegue respirar. Ele quer puxar um longo trago de ar e correr, correr como nunca correu. Mas como nos sonhos, não consegue. O medo cresce, sente o suor escorrendo em sua face. Por fim, sente um toque gélido em seu ombro. Sua visão se clareia:
— Não se pode fugir daquilo que é... — o vulto branco sussurra.
E então vem a dor. E cada parte de seu corpinho frágil começa a envelhecer, a se encher de rugas e ressecar. Sente seus órgãos se contraírem, sente seus olhos escorrerem todo fluido por seu rosto. Ouve suas unhas caírem ao solo, uma a uma, até que não ouve mais nada quando seus tímpanos se desfazem como pó. E aquilo tudo dói, e aquilo tudo traz consigo um cheiro milhares de vezes pior que o de antes.
Um cheiro que sai dele mesmo, um cheiro de morte consolidada, de cripta antiga aberta após séculos. Onde o pó cobre todas as memórias, cobre toda a história de um corpo apodrecido e uma alma corrupta. Ele não quer ser assim, não quer deixar de ser a criança ingênua que é.
Só queria jogar bola com o pai.
Mas o que quer não importa, e logo o cheiro de seu pai se dissipa da memória.
Há algo dentro dele mais forte que sua própria consciência.
Dor: e sua única saída é sorrir, assim como a criatura que o contempla.
Não há esperança.
Passos ecoam na escuridão. Um longo túnel a frente do menino. Está escuro como o inferno, e um cheiro podre navega pelo ambiente. A criança não pode vê-lo, mas sabe que em algum lugar em meio às sombras e ao breu completo, está seu pai.
— Papai?
Caminha timidamente. O desejo de ver seu pai é mais forte que o medo de suas pernas. O coração pula em freqüência absurda no corpinho vulnerável. Tudo é silêncio, exceto pelo seu ofegar. E o cheiro pútrido começa a se tornar mais forte. Um horrível cheiro de morte, o mesmo que se sente quando o quarto de um suicida é aberto após dias com o cadáver na cama. Mas ele é apenas uma criança inocente, jamais viu um cadáver, talvez nem saiba o que é morrer.
Acelera os passinhos miúdos, persegue as trevas como homem algum seria capaz de fazer. A ingenuidade é um grande escudo, o desconhecimento um combustível da coragem. A luz se extinguiu por completo, nem o próprio ponto de onde partiu está visível ao mais atento dos olhos. Mas ainda assim, o menino prossegue.
O chão começa a ficar pegajoso, e as paredes, mesmo no breu, parecem se fechar. O ar é pesado, o ar é denso; o ar é áspero e rasga as narinas ao entrar. Cada respiração é como um sufocamento. Está chegando, ele sente que está chegando cada vez mais perto de seu sonho. Seu pai jogará bola com ele mais uma vez antes de ir, ele tem certeza!
Um som.
Um som se arrasta a alguns centímetros à frente. Não é seu pai. Não é seu pai, e que medo isso lhe gera. Um som tão violento como o ar, tão podre como o funesto cheiro. Ele quer apenas desviar daquilo e continuar correndo, mas suas pernas ganham a força para segurá-lo. O pavor domina cada centímetro de seu corpo.
Um gemido.
Daquilo à sua frente sai um gemido rouco e seco. O garoto pode sentir a presença ao alcance de suas mãos, sente-se encurralado. Não há como fugir, não há nada a fazer. O mistério se aproxima, e o pequeno pode sentir mãos putrefatas o buscando na escuridão. Não se move, não consegue se mover. Não consegue respirar. Ele quer puxar um longo trago de ar e correr, correr como nunca correu. Mas como nos sonhos, não consegue. O medo cresce, sente o suor escorrendo em sua face. Por fim, sente um toque gélido em seu ombro. Sua visão se clareia:
— Não se pode fugir daquilo que é... — o vulto branco sussurra.E então vem a dor. E cada parte de seu corpinho frágil começa a envelhecer, a se encher de rugas e ressecar. Sente seus órgãos se contraírem, sente seus olhos escorrerem todo fluido por seu rosto. Ouve suas unhas caírem ao solo, uma a uma, até que não ouve mais nada quando seus tímpanos se desfazem como pó. E aquilo tudo dói, e aquilo tudo traz consigo um cheiro milhares de vezes pior que o de antes.
Um cheiro que sai dele mesmo, um cheiro de morte consolidada, de cripta antiga aberta após séculos. Onde o pó cobre todas as memórias, cobre toda a história de um corpo apodrecido e uma alma corrupta. Ele não quer ser assim, não quer deixar de ser a criança ingênua que é.
Só queria jogar bola com o pai.
Mas o que quer não importa, e logo o cheiro de seu pai se dissipa da memória.
Há algo dentro dele mais forte que sua própria consciência.
Dor: e sua única saída é sorrir, assim como a criatura que o contempla.
Não há esperança.
